Imagem ilustrada a partir de fotografias do contexto real das comunidades.
Ilustração: Agenda Propia.
Colômbia

Yagé: o perigo de uma tradição ancestral se tornar uma prática comercial

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Sinopsis: 

Na mira da ciência está a medicina tradicional dos povos indígenas: o yagé ou ayahuasca, (uma mistura de plantas que crescem na floresta e que são utilizadas em rituais sagrados). A apropriação desse conhecimento para pesquisas que possibilitem a cura de doenças neurodegenerativas inquieta as comunidades amazônicas na Colômbia.

O yagé faz parte da identidade de alguns povos da Amazônia. Por tanto lideranças indígenas levantam suas vozes para avisar que o uso indevido da planta sagrada pode transformar uma tradição antiga em uma prática comercial.

 

Ficha Técnica: 

Tipo de conteúdo: Sonoro 

Data de realização: 2021

Título da série: Vozes da Amazônia - Ouça, a memória fala!

Realizado(ra): Judit Alonso.

Lugar: Putumayo, Colômbia

Duração: 15:49

Yagé: o perigo da comercialização de uma tradição

30 de Agosto de 2021Por: Judit Alonso.

A apropriação do remédio sagrado do yagé (também conhecido como ayahuasca) para a cura de doenças neurodegenerativas inquieta as comunidades amazônicas colombianas, que temem que seus conhecimentos não sejam respeitados.

“Os Ingas, os Kofanes e os Sionas, da Colômbia, somos da cultura do yagé, que é a base fundamental da nossa espiritualidade”, diz Gabriel Muyuy, líder da etnia Inga, do Putumayo.

O yagé ou ayahuasca é uma mistura de plantas que crescem na floresta e que são utilizadas em rituais sagrados, fortalece sua espiritualidade. “As sessões são realizadas sob a coordenação dos taitas, dos xamãs de cada um dos povos.  Utilizamos essas ervas para a proteção, o fortalecimento espiritual e também para o tratamento de doenças de origem espiritual que a medicina occidental, a medicina não indígena não cura”, explica a liderança Inga.

No entanto, os benefícios curativos do yagé podem transformar uma antiga tradição amazônica da Colômbia, do Brasil, do Equador e do Peru, em uma prática comercial. Resultados de pesquisas científicas para doenças como o mal de Alzheimer e a síndrome de Parkinson, que têm como base o yagé, podem representar um risco para essas comunidades.

“Para nós, tudo o que tem a ver com pesquisa é prejudicial. Qual é o motivo? Porque, têm violentado nossos direitos, ao consentimento livre e informado, ou à consulta prévia, começam a pesquisar e depois aparecem como os donos da pesquisa, da construção do documento e donos das plantas medicinais ", denuncia Miguel Evanjuoanoy Chindoy, membro da União de Médicos Indígenas Yageceros da Amazônia Colombiana (UMIYAC).

Esta é a planta que serve de base para o preparo da medicina ancestral do yagé dos povos indígenas amazônicos..
Fotografia: Agenda Propia.

A organização criada em 199 conta com a participação de cinco grupos indígenas: Inga, Siona, Kofan, Koreguaje e Kamentsa. Seu objetivo é preservar a floresta tropical, bem como defender a cultura e sua medicina ancestral.

Miguel Evanjuoanoy é Engenheiro ambiental, ele teve  conhecimento da medicina ancestral desde criança, graças ao seu pai, médico naturopata da Terra Indígena Inga de Yunguillo, no Putumayo. Este, por sua vez, conheceu o yagé graças a sua relação com os mais velhos. “Ele adquiriu esse conhecimento tomando remédio com os avós, estando com eles, indo à floresta em busca daquelas plantas medicinais”, conta o jovem sobre o progenitor.

Atualmente sua preocupação é que esse conhecimento termine nas mãos erradas.

“A cada dia a ciência começa a formatar, a mudar o conceito da medicina, a dizer que a substância do yagé é uma substância psicodélica, diz que é alucinógena, que contém DMT, mas sem respeitar, nem ouvir os povos”, critica. O que traz graves consequências: “faz com que a medicina milenar dos povos originários perca a sua essência, e com a perda da essência da medicina se perde a cultura”, considera Miguel Evanjuoanoy.

Miguel Evanjuoanoy Chindoy, membro da União dos Médicos Indígenas Yageceros da Amazônia Colombiana.
Fotografia: arquivo pessoal de Miguel Evanjuoanoy Chindoy.

O mesmo aconteceu com outras plantas como a da coca e a do tabaco, que segundo Miguel Evanjuoanoy foram criminalizadas e. “Por qual motivo? Pelas mesmas pesquisas e más práticas que tem sido feitas com estas com essas plantas sagradas dos povos originários”, diz ele.

No caso do yagé, um: um grupo de cientistas brasileiros publicou em 2018 os resultados de uma pesquisa onde sugerem que a ayahuasca, com a dosagem certa em um ambiente adequado, pode ajudar no tratamento da depressão. Em outro artigo científico, expressaram que a  ayahuasca foi utilizada no tratamento de farmacodependências, como no caso do Instituto de Etnopsicologia Amazônica Aplicada (IDEAA).

Um risco em aumento

As investigações sobre o yagé ou ayahuasca aumentaram nas últimas décadas devido a diversos fatores: “um notável interesse por parte de certas organizações ou ONGs e corporações interessadas em financiar investigações científicas sobre estes temas, principalmente em países do Norte Global (os países desenvolvidos), enquanto que em países do Sul Global (em desenvolvimento) têm sido determinados governos que incentivaram as pesquisas a partir de recursos públicos”, aclara Alhena Caicedo, professora associada do Departamento de Antropologia da Universidade dos Andes, da Colômbia, em entrevista à mídia alemã DW.

Alhena Caicedo destaca na entrevista as pesquisas realizadas em países como a Espanha, o Canadá, o Brasil e o Uruguay. “Se relaciona também com o impulso na circulação da ayahuasca em um sentido mais comercial e a geração, em paralelo aos avanços científicos, de uma economia em torno do consumo”, acrescenta. 

A  UMYAC  lançou um comunicado alertando para a apropriação de símbolos, usos e costumes por pessoas e empresas. “Temos visto que o único que eles estão fazendo com a pesquisa é de fata, empobrecer os povos. O que estão fazendo é extrair a informação, preencher documentos e, como sempre aconteceu: invadir, extrair todos os recursos que temos como povos e transformá-los em outra indústria ”, Miguel garantiu, em entrevista concedida, também à mídia alemã.

O desenvolvimento de uma atividade relacionada à planta sagrada pode ter consequências nefastas para a Amazônia, tanto no nível ecológico quanto no nível cultural e social, alerta a antropóloga, Alhena Caicedo, apontando para os riscos de apropriação cultural, direitos de propriedade intelectual e patentes, entre outros.

Bosque amazônico do Putumayo, lugar onde os indígenas fazem a colheita das plantas para preparar suas medicinas tradicionais.  
Fotografia: Edilma Prada / Agenda Propia.

Viver para resistir

“É preocupante que a medicina do yagé esteja mudando sua essência porque a ciência está tentando industrializá-la, retirá-la e patenteá-la. Isso coloca em risco as comunidades indígenas. Desde a invasão dos territórios que sofremos há mais de 500 anos, continuamos nessa luta constante para defender esses conhecimentos e todos os direitos que nós, povos indígenas temos”, enfatiza Miguel Evanjuoanoy.

Para evitar tudo isso, a luta se foca na defesa do território e do seu patrimônio cultural. No entanto, essa luta é realizada sem apoio governamental, uma vez que não existe uma lei específica que proteja os valores espirituais e culturais do yagé. Por este motivo, a medicina tradicional deve ser preservada, tanto no âmbito privado quanto no coletivo. Desta forma se busca evitar uma catástrofe.

“O genocídio virá para os povos indígenas e é isso que não queremos porque a Amazônia é o pulmão do mundo, de toda a humanidade, de todos os seres vivos. E, quem mora nesse pulmão do mundo? Quem o está conservando? Quem o está protegendo? Somos os povos amazônicos, então se formos exterminados, toda a humanidade estará destinada a sofrer essas tragédias ”, avisa Miguel.

Apesar disso e sabendo que os saberes indígenas podem contribuir para as soluções de muitos problemas que afligem o mundo, o integrante da União dos Médicos Indígenas Yageceros da Amazônia Colombiana- UMIYAC, quer construir uma ponte de diálogo com o campo científico. “A abordagem que queremos é a do dialogo e do respeito às culturas indígenas, às suas plantas medicinais, e que os povos originários sejam ouvidos somos nós quem verdadeiramente sabemos sobre isso”, lembra.

Nota. A série sonora Vozes da Amazônia - Ouça, a Memória fala! foi produzida em um processo de cocriação com jornalistas e comunicadores indígenas da Rede Tecendo Histórias (Red Tejiendo Historias, en español), sob a coordenação editorial do meio independiente Agenda Propia.

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